“Por que meu cão ficou ASSIM?!”
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“Por que meu cão ficou ASSIM?!”


Por Juliana Nishihashi



Glinis pensativa sobre a pergunta do título

Essa é uma pergunta que escutamos muito quando fazemos consultorias. E embora depois de longa conversa com o tutor e família a gente encontre justificativas plausíveis para uma mudança ou piora no comportamento do cão, muitas vezes nosso diagnóstico não reflete o que os tutores acreditam que levou a essa mudança.

Vou explicar melhor.


É muito comum (muito mesmo!) conversarmos com tutores que tem queixas do comportamento de seus cães e ouvirmos as seguintes frases sobre o problema:


  • “Não entendo por que ele faz isso, eu dou amor e carinho o tempo todo...”

  • “Não sei por que ele é tão agressivo, a gente nunca bateu nele!”

  • “Ela morde as crianças porque quer defender o território, ela vê as crianças como outros cães de fora da matilha!”

  • “Eu não entendo por que ele é indisciplinado, aqui em casa somos super linha dura, não deixamos passar uma malcriação!”

  • “Ela é brava porque os pais eram assim também, é tudo culpa da genética, porque eu não fiz nada de ruim pra ela!”


E por aí vai... já ouvimos muitas coisas nesse tempo de adestramento e consultoria! E eu queria explicar que, embora algumas dessas frases não estejam 100% erradas, elas isoladamente nunca justificam os problemas comportamentais dos cães!


Os comportamentos de um cão são influenciados por diversos fatores: genética, temperamento, sociabilização, experiências de vida, questões de saúde. A grosso modo, podemos dizer que tudo isso é colocado num caldeirão e misturado, e daí sai seu cãozinho com as características individuais só dele (pra bem ou pra mal).

Portanto, o primeiro erro em relação à pergunta título é crer que 1 só componente define os comportamentos do cão – por exemplo: meu cão tem medo de gente – COM CERTEZA apanhou de pessoas. Esse cão pode simplesmente ser um cão com temperamento medrosos que não aprendeu como interagir com pessoas.


Da mesma forma, não é possível dizer que filhote de pais sociáveis será dócil só por esse fator. É possível transformar o filhote num cão assustado e reativo, caso não faça a sociabilização e utilize métodos punitivos para tentar educar o cão. E é bem comum ouvir relatos deste tipo, onde o tutor adquiriu um cão de “pais campeões e padrão da raça”, porém sem sociabilização e educação correta, o filhotinho desenvolveu diversos problemas de comportamento. A crença de que basta ter uma boa genética pode causar um grande problema nas famílias multiespécie. Boa genética e técnicas positivas de educação canina precoces são a receita para um cão mais equilibrado.


Falando em educação adequada, existem algumas questões neste assunto que levam a interpretações erradas sobre comportamento canino. Um dos relatos acima é de uma família que esperava não ter um cão com problemas de comportamento, uma vez que eram bastante rígidos e não deixavam passar nenhum comportamento “errado” do cão - ou seja, a cada comportamento indesejado, o cão era punido. A expectativa da família era que, com mais rigidez e disciplina, o cão fosse um exemplo de bom comportamento. Mas explico porque discordamos dessa abordagem:


- focar em punir, em vez de ensinar o que queremos, geralmente é a causa de problemas comportamentais, não a solução. Seu cão pode parar de roer seus sapatos se for punido, mas poderá começar a latir e se auto-mutilar, por exemplo.

- punir sistematicamente é a melhor forma de acabar com o relacionamento da família com o cão; o cão passará a temer os tutores e com isso, as chances de uma melhora no comportamento diminuem.

- o conceito de educação canina à base de rigidez e coerção já caiu há um tempo, sendo substituído por metodologias modernas, cientificamente comprovadas, e baseadas em reforço positivo.


Independentemente da genética canina, da raça, ou qualquer outra característica do cão, é possível afirmar que uma postura dominadora do tutor ou punições com rigor não são formas eficazes de educação – pelo contrário, podem contribuir para aparecimento de problemas comportamentais!


Se por um lado, temos tutores que aprenderam que a melhor forma de educar seus cães é sendo rígidos e dominantes, temos também tutores que acreditam que amor e afeto bastam para que o cão se comporte.

Já treinamos diversas famílias assim: eles não entendiam porque Fido estava mordendo a todos – ele não havia sido criado com violência, ele nunca havia apanhado, ele só recebia carinho, por isso, a família não entendia o porquê do cão ser tão agressivo! Porém, Fido não tinha sido educado para receber visitas, e a família não sabia era que Fido era na verdade um medroso que descobriu que morder afastava pessoas estranhas! Infelizmente, mesmo com todo o amor, ninguém da família conseguiu interpretar corretamente as atitudes do Fido nem ajudá-lo a lidar com o medo da forma correta.


Que fique bem claro, nós também acreditamos numa educação baseada em amor, afeto, cuidado e carinho. Mas nossa interpretação de amor pode ser um pouco diferente do comum. Acreditamos que o amor tem alguns componentes que podem ser demonstrados de forma prática:

AMOR NA PRÁTICA = entender sobre comportamento canino + conhecer bem seu próprio cão + aprender a se comunicar com seu cão + ensinar seu cão a lidar com o mundo + proporcionar bem estar ao seu cão + ser afetuoso, carinhoso

Amor pelo Fido com certeza não faltava! Mas com esses componentes práticos, podemos dizer que o relacionamento fica mais completo, e com certeza, fica mais fácil de modificar os comportamentos indesejados do cãozinho. Amor, educação, informação e prática são fundamentais para uma melhora no comportamento!


E falando em modificação comportamental, e quando nos deparamos com uma família que já não acredita mais ser possível modificar ou melhorar nada no comportamento do cão?

Muitas vezes resignados por falta de informação, alguns tutores jogam a toalha pois acreditam que “o cachorro é assim desde pequeno, não vai melhorar!”. Muitos batem o martelo por exemplo, se a causa for genética (por exemplo, border collies fissurados em pastorear carros), não há nada que possa ser feito, então é melhor deixar assim mesmo! Se o cão foi adotado adulto e veio com um comportamento ruim, se não foi educado desde pequeno não há o que fazer! Infelizmente, é super comum ouvir isso, cães agressivos, reativos, compulsivos, que receberam o rótulo de “impossíveis”.


E nós dizemos, que em maior ou menor grau, sempre é possível melhorar alguma coisa. Independente do por que, sempre podemos melhorar a qualidade de vida do cão e da família e seu relacionamento. Com orientações personalizadas para cada caso, muita persistência, treinamento positivo e paciência, sempre conseguimos algum resultado.


Portanto, quando você se deparar com um problema com seu cão e pensar “por que ele ficou assim?”, pense que existem diversos fatores influenciando os comportamentos do cão, o tempo todo, pelo resto da vida dele. Descobrir o por que pode ser necessário, mas o importante não é focar no por que e sim no como – como melhorar, como treinar, como ajudar meu cão? Essas perguntas sim vão ajudar você e seu cão a terem uma vida melhor.

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