No veterinário: Seu cão se controla ou é controlado?
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No veterinário: Seu cão se controla ou é controlado?

Atualizado: 25 de Jan de 2019

Por Juliana Nishihashi



Glinis no colinho da tia, procurando aconchego e segurança


A maioria dos tutores tem alguma história envolvendo seu cão e o consultório do veterinário. Mordidas, fobias, tentativa de fuga, pedido de colo, “síndrome do jaleco branco” são coisas que sabemos que acontecem na presença do veterinário, esse profissional tão necessário mas muitas vezes temido pelos cães.


E não estou dizendo que a culpa é dos vets! Conheço profissionais pacientes e cuidadosos com os animais, levando em conta o tratamento de saúde e o bem estal mental dos bichos. Porém, a própria natureza do trabalho do veterinário (e técnicos, enfermeiros e outros profissionais da área) é incômoda para a maioria dos animais: exames muitas vezes invasivos, aplicação de injeções e outros medicamentos via oral, toques em lugares “polêmicos” como orelhas, rabo, anus, necessidade de restrição física do animal... Tudo isso gera associações negativas – “ida ao veterinário = dor, incômodo, medo”. E para não deixar que essa seja a única associação criada na clínica, precisamos treinar – e muito! – e também contar com profissionais atualizados e que usem técnicas positivas para contenção de cães, gatos e outros animais.


O objetivo desse artigo não é abordar técnicas para treinamento de cães que tenham medo ou demonstrem agressividade no consultório médico, embora eu vá falar um pouco das formas que podemos minimizar esses problemas.


Queria convidar vocês a fazerem uma reflexão sobre os motivos que levam os cães a ficarem estressados no consultório, qual o nosso papel de tutor nessa história e o que os profissionais da área da saúde também podem fazer para ajudar ainda mais nossos animais!

Reações no consultório - naturais porém indesejáveis

Treinamos nossos cães desde filhotes para que permitam manipulações e toques. Isso faz parte do protocolo de sociabilização da maioria dos treinadores positivos. E quando bem feito, esse processo fará com que a maioria dos cães não desenvolva problemas relacionados a manipulação e exames – banho, escovação, corte de unhas, examinação em orelhas e boca, etc, passam a ser considerados normais para os cães. Porém algumas coisas não conseguimos treinar com frequência – quem aqui tem hábito de dar injeção no cachorro só para treinar? Neste caso, aproveitamos as idas reais ao vet para fazer uma associação positiva: enquanto o filhote/cão toma a injeção, restringimos delicadamente e oferecemos um petisco saboroso. Mas mesmo com esse procedimento, injeções podem ser doloridas e podem criar uma associação negativa. Então, devemos entender que essa associação é natural, e uma possível reação também, e precisamos trabalhar para minimizar os incômodos sempre recompensando o cãozinho com alimento e MUITO carinho!


Portanto, podemos perceber que um cão que reage no veterinário não é necessariamente ‘mal educado’ ou foi mal sociabilizado, mas pode ter criado associações ruins ao longo do tempo. O trabalho em conjunto do tutor com o veterinário pode ajudar a melhorar essa situação.


A culpa é sempre do tutor – ou não?

Existe uma grande pressão sobre o tutor para que seu cão se comporte no veterinário. Se por um lado isso realmente é uma responsabilidade do tutor, por outro lado, existe uma falta de empatia real em muitos casos. Explico melhor:


Como falei acima, é trabalho do tutor (ao lado de um consultor ou treinador) fazer a sociabilização de seu filhote e treinos para habituar seu cão às manipulações cotidianas.

Se o tutor não fizer, não existe médico, técnico, enfermeiro ou adestrador que conseguirá controlar o cão de forma satisfatória nas consultas médicas. Então, essa parte é verdade: o empenho do tutor é fundamental para que o cão se sinta mais seguro, confiante e acostumado com os procedimentos médicos.


Porém, é muito comum ouvir o seguinte: “Seu cão está fazendo _____ (insira comportamento “ruim” aqui) porque você está por perto, para fazer manha. Está fazendo isso porque assim você vai pegar no colo e proteger ele. Aposto que se outra pessoa segurar, ele pára de fazer birra e não vai mais _____ (insira atitude “ruim” aqui).


Não acreditamos muito nesse conceito por diversas razões. A principal é que, numa situação de medo, pânico ou dor, o cachorro não estará pensando em você, e sim em se livrar da situação – é o instinto de “fuga ou briga”, onde ele vai fazer o que for possível para se livrar. Se isso quer dizer morder, rosnar, pular, fugir... é o cão quem vai decidir. Você estar lá ou não raramente vai influenciar o cão a agir de forma mais agressiva – o foco do cão será sair da situação assustadora, e não “fazer birra”.


Segundo, somos veementemente contra a “terceirização” do cuidado com o cão. Se o tutor não tem conhecimento suficiente para conter e auxiliar seu cão evitando reações durante os procedimentos, é possível aprender, passando confiança e ensinando auto-controle ao cão – nosso objetivo é sempre incentivar que o cão se controle, não controlá-lo a força. Portanto, se a presença do tutor é um fator de estresse para o cão, o tutor pode aprender a modificar isso com exercícios e melhora na comunicação. O veterinário ou técnico deve auxiliar na contenção do cão para bem do tratamento, e pode orientar o tutor como proceder na situação (não sendo necessário retirá-lo da sala), e o tutor deve buscar auxílio de um consultor para aprender a manejar seu próprio cão.


Finalmente, essas duas questões me levam ao que acho fundamental; muitas vezes o cão reage quando o tutor o maneja mas não reage com um desconhecido, não porque “prefere” se comportar mal com o dono, mas sim porque entra em freeze na presença de alguém estranho.

Um exemplo: você está cativo num local estranho com um amigo. Ambos estão amedrontados e tentando escapar. Se seu amigo se aproxima de você, não lhe causa nenhum medo ou susto, pois você o conhece, e continua tentando escapar daquele local terrível. Porém, do nada, aparece um desconhecido. Ele se aproxima silenciosamente, te segura pelo pescoço, prende suas mãos, te obrigando a parar de fugir. É provável que, por medo, você se submeta, certo? Não tem nada a ver com ‘se acalmar’, ‘perceber que está tudo bem’, ou ‘respeitar a pessoa’.


Então, essa é a situação da maioria dos cães fóbicos – eles podem congelar na presença de um estranho fazendo a manipulação ou restrição, e isso não significa que estão calmos, e sim que estão em pânico mas sem condições de reagir.

Isso é bom para terminar o exame ou tratamento? Sim, pois agiliza o processo. Mas é péssimo para o comportamento e saúde psicológica do cão, que poderá criar associações ainda piores com os profissionais da clínica e a manipulação, e ainda demonstrar reatividade em outras situações, pelo elevado nível de estresse e ansiedade.


Portanto voltamos à pergunta do título: no veterinário, seu cão se controla ou é controlado? Se controlar tem a ver com aprender que as situações não são perigosas e que não é necessário reagir, através da criação de associações positivas com as pessoas e manejo adequado e da presença reconfortante do tutor. Ao ensinar um cão a se controlar, ele não reage tão impulsivamente, consegue ouvir as orientações do tutor (como executar um truque ou ficar em determinada posição, por exemplo). Para chegar neste ponto de auto-controle, recomendamos exercícios específicos diários, além de um trabalho de comunicação e fortalecimento de vínculo entre cão e tutor no cotidiano. Ser controlado significa estar sob o domínio de alguém, estar sujeito a alguma situação da qual não se pode escapar e isso não quer dizer que o cão esteja confortável, gostando ou mesmo tolerando a situação – simplesmente quer dizer que não resta opção ao cão além de aguentar. Isso pode ter repercussões no comportamento no futuro, e não é o que queremos.


Ainda bem que cada dia contamos com mais profissionais da área pet que entendem de comportamento e linguagem canina e estão aptos a educar os tutores e tratar os cães através do que chamamos de “manejo de baixo estresse”. Essa forma de atender cães na clínica leva em conta o bem estar canino para conduzir um exame e tratamento veterinário excelente.

Portanto não acredite quando lhe disserem que é normal cachorro se debater, espernear, latir e morder quando examinado, e muito menos acredite em técnicas de contenção “milagrosas” usando força ou dominação simplesmente para agilizar um procedimento médico ou estético. Busque profissionais atualizados que respeitem as características dos cães e compreendam suas limitações, medos e particularidades. E também procure auxílio de um consultor comportamental para trabalhar junto a você e seu cão, para que cada ida ao veterinário, banho ou exame seja mais confortável, mais segura e mais empática, para você, para o cachorro e para os profissionais que trabalharão com vocês!

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