Não exija do seu cão aquilo que você não ensinou pra ele!
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Não exija do seu cão aquilo que você não ensinou pra ele!

Atualizado: 10 de Ago de 2018

Seu cão é esperto, mas não é vidente!


Por Juliana Nishihashi


"Sair correndo do fica e ir em direção à obra de arte, ou ficar, eis a questão" - Glinis

Parece óbvio esse título, não? É claro, como vou exigir que meu cão faça um comando complexo, uma pista de agility ou um percurso de faro sem que eu tenha ensinado previamente essas coisas para ele? O que nós muitas vezes nos esquecemos é que, assim como comandos ou tarefas específicas, “bom comportamento” também precisa ser ensinado.


Coloquei bom comportamento entre aspas e vou explicar porque. Bom comportamento é um conceito bastante subjetivo, de certa forma. Um cão urbano, para ser considerado bem comportado, precisa de uma série de qualidades – precisa saber como agir em meio à multidões, sentar-se e ficar parado em um restaurante ou dentro do elevador, não pode latir para campainha ou telefones, por exemplo. Agora, um cão rural, que vive solto, ou mesmo dentro de uma área grande, como uma chácara, não precisa de nenhum dos atributos acima para ser considerado bem educado. Raramente andará em meio a uma multidão como nas avenidas urbanas, pode deitar e repousar quando, onde e se quiser, e é até útil se latir bastante para avisar que tem um intruso na porteira!!


Dessa forma, quero dizer que “bom comportamento” são características que nós humanos precisamos determinar, e uma vez determinadas, é nosso papel ensinar para os cães, pois de forma alguma ele vão descobrir sozinhos os códigos de conduta humanos.

É muito comum recebermos queixas de tutores que dizem que seus cães são “desobedientes no geral”. No espectro enorme de comportamentos caninos, dizer isso geralmente é um grande exagero. Conversando melhor com esses tutores, o que descobrimos é que as queixas quase sempre estão relacionadas a situações que não estão no hardcode dos cães, assim por dizer. Ou seja, não são coisas que os cães naturalmente saberiam. Na verdade, quase nada do que exigimos dos nossos cães são atitudes naturais para os caninos: fazer as necessidades sobre um quadrado branco colado no chão da área de serviço, usar um laço estranho no pescoço que liga o cão ao humano durante as caminhadas, entrar numa “toca móvel” que corre e pára nas ruas, enquanto outras “tocas móveis” também correm e ainda buzinam, entre outras bizarrices do mundo humano.


Então, quando temos uma queixa a respeito do comportamento do nosso cãozinho, é necessário fazer essa avaliação: “o que deixei de ensinar para meu cão, que afetou seu comportamento?”. Vou dar um exemplo pessoal; na minha família não temos crianças, só adultos. Apesar de teremos exposto nossos filhotes ao mais variados estímulos durante a fase de sociabilização (isso incluiu crianças), por não termos crianças disponíveis o tempo todo para brincar e interagir com meus cães, essas situações não são corriqueiras para eles. Crianças estão inseridas no contexto de passeio na rua, parques e cachorrodrómos, com pequenas interações. Se a partir de agora, eu quisesse que meus cães convivessem intimamente com uma criança em casa, eu precisaria ensiná-los a lidar com essa nova situação. Exigir que eles saibam brincar, interagir e apreciar essa situação diferente, sem que eu os ensinasse, seria muito desleal com eles.


O mesmo vale para aquele cão que sente medo de cortar as unhas, por exemplo. Aqui é um pouco mais complexo, pois estamos falando de uma emoção. Ao não ensinarmos nosso cão a ter as patas manipuladas e as unhas cortadas, desde filhote, as chances de que o cão desenvolva medo desta situação são grandes. Portanto, se precisamos cortar as unhas desse cachorro e ele demonstra medo e estranheza com a situação, de nada adiantará segurar, brigar ou gritar: a falha no ensino é o que gerou esse “mal comportamento”.


E mesmo que você esteja lidando com um problema relacionado a algo que você já ensinou a seu cão, pare e pense se vocês não pularam alguma etapa.

Nós humanos tendemos a ser um tanto quando “afobados” por resultados. “Pare de fumar em 1 mês”, “Aprenda inglês em casa em 6 semanas”, “Perca peso rápido – pergunte-me como!”. Portanto, é comum vermos casos de pessoas que ensinaram algo para seus cães (ficar calmamente deitado durante um almoço, por exemplo), e ao tentarem executar esse mesmo comportamento em algum contexto novo, falharam miseravelmente. Será culpa do cão, que fingiu que entendeu a lição mas na verdade rasgou a apostila? Ou será culpa do tutor, que treinou com o cão rigorosamente dentro de casa, e mais tarde foi exigir que o cão deitasse calmamente na praia entre os banhistas? Com esse exemplo, é possível percebermos que, para o cão, cada nova situação, cada acréscimo de estímulo, é digno de um ensinamento novo da nossa parte – até chegarmos no que chamamos no adestramento de generalização, aquele momento onde o cão entende o que lhe é pedido nos mais variados cenários.


Portanto, sugiro fazermos sempre esse exercício de empatia com nossos peludos, e entender que coisas que são comuns e fáceis para nós, não o são para nossos cães. E exatamente esse exercício que nos fará melhorar nossa capacidade de comunicação e, consequentemente, qualquer treinamento que precisemos implementar com nossos bichos. Sempre com paciência, cuidado e sensibilidade – sem se esquecer de nos divertimos com nossos cães no caminho!

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