Cão com Manteiga - A relação entre Medo e Confiança.
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A relação entre Medo e Confiança.

Atualizado: 14 de Fev de 2019

Por Oliver So

Tudo em excesso é prejudicial. Inclusive água. Alguém já tentou tomar 30 litros de água de uma vez? Não tente fazer isso em casa! Exageros à parte, eu precisava falar sobre a relação entre medo e confiança nos treinos e, principalmente, no dia a dia da convivência com os cachorros. Todo mundo tem alguns medos e sente confiança em alguns momentos. O problema é o excesso de cada um desses dois.


Sempre gosto de contar a história do dia em que fui "colocado contra a parede" por uma cliente que achou que eu tinha medo demais. Eu comecei a dar aula para um pastor alemão agressivo, o Judô (adorei o nome dele desde o primeiro dia), que havia atacado duas pessoas. Pelo menos durante as aulas e enquanto seguissem as minhas orientações, eu, como todo treinador, era o responsável por garantir a segurança de todos ali: da tutora, das pessoas que conviviam com o cão, do próprio Judô e da minha própria. Lembrem: treinador de cachorro não é cobaia nem dublê. Portanto, lá fui eu tomando as medidas que julguei necessárias: guia longa presa em um ponto fixo, área de segurança delimitada, espaço para o cão se sentir tranquilo, aproximação gradual e associada a uma comida bem gostosa e brinquedos de interesse dele. Demorou um pouco para conquistar a confiança do Judô, mas deu certo. Ele era um cachorro que tinha medo e as pessoas que conviviam com ele não entendiam, não sabiam interpretar suas posturas corporais. Diziam que, normalmente, "ele SÓ rosna". Eu consegui mudar essa frase na cabeça deles para "ele JÁ rosna". Porque o rosnado é um dos últimos sinais de incômodo que um cão dá antes de atacar. Se rosnava é porque ultrapassaram o limite de tolerância dele. Um certo dia, a tutora me chamou para conversar e disse que achava que eu ficava com muito medo, porque tomava muitas medidas de segurança e estava deixando todos dali com medo também. Minha explicação foi que eu realmente tinha medo. Quem não tiver medo de ser atacado por um pastor alemão não está em condições normais de sanidade. Mas disse que meu medo era grande o suficiente para tomar todas as medidas de segurança necessárias e pequeno o suficiente para não deixar de treinar o Judô. Eu nunca conversei com a tutora sobre essa nossa conversa, mas continuei dando aula por um bom tempo e o Judô evoluiu muito, me permitindo tocar, brincar e até tirar brinquedos da boca dele. Foi uma experiência inesquecível e que eu sou muito grato pela oportunidade de ter aprendido tanto com ele e com sua tutora.


Não conto esse caso para me vangloriar, afinal muitos outros treinadores já tiveram experiências iguais ou mais complicadas que essa. Mas sim para alertar sobre a visão deturpada que as pessoas têm sobre o medo.


Como diz o filósofo Mario Sergio Cortella, "Coragem não é a ausência de medo. Coragem é a capacidade de enfrentar o medo. Uma pessoa que se acha corajosa e que não tem medo está ficando vulnerável”. O medo nada mais é que uma vantagem evolutiva selecionada naturalmente.

Um outro caso aconteceu comigo e mostra o outro ponto desse texto: a confiança. Sempre digo que é importante ter confiança. Em si, nas pessoas que você quer ter próximas, no seu carro, no piloto do avião, no seu cachorro etc. Mas confiança em excesso é a receita para ter problemas. Eu estava começando o passeio com meu cachorro, o Elvis, na guia e passei por uma casa, onde uma mulher estava indo em direção ao seu carro, estacionado em frente. De repente, veio uma cachorra disparada igual a um foguete para cima do Elvis e deu uma mordida nele. A tutora correu atrás e conseguiu levá-la para dentro do carro. Ela veio pedir desculpa, explicar que estava só colocando a cachorra - sem guia - no carro para levar para o banho. Também perguntou se estava tudo bem com meu cão, mas já não dava para voltar atrás. Elvis saiu para o passeio todo estressado, latiu para alguns cães na rua, caminhão, pássaro, puxou um pouco a guia, coisas que ele já está bem melhor faz muito tempo. Sorte que não machucou. Mas poderia ter machucado. Elvis poderia ter atacado de volta e virado uma briga feia - que briga que é bonita, né? -, ou a própria cachorra poderia ter sido ferida. Tudo porque a tutora estava num modo automático e rotineiro de colocar a cachorra no carro. Confiante que nada ruim ou fora da normalidade iria acontecer. Afinal, nunca aconteceu, porque aconteceria bem naquele momento? Mas aconteceu. E o simples fato de ter prejudicado o estado interno do meu cachorro o passeio todo já é péssimo. Não fosse por culpa dessa tutora, eu e o Elvis teríamos tido um passeio muito mais tranquilo e proveitoso.


Digo tudo isso para cada tutor e treinador assumir suas responsabilidades e deixar de ter comportamentos automáticos ou negligentes. Essas foram apenas duas situações, mas podemos reconhecer diversas outras como essas, em que o excesso de medo ou confiança é prejudicial:


• Pessoas que andam com cães sem guia em locais abertos.

• Vídeos caseiros envolvendo cães e crianças, geralmente colocando a criança em risco.

• Pessoas forçando cães a interagirem com outros animais ou pessoas.

• Pessoas que ficam "brincando" de ameaçar tirar algum objeto ou comida do cachorro.

• Pessoas que ignoram sinais e problemas dos cães propositalmente, argumentando que “é coisa de cachorro”.

• Pessoas que negligenciam os cuidados com seu cachorro por ele estar demonstrando comportamento agressivo.


Pedir ajuda a um treinador especialista em comportamento canino de confiança é um bom caminho para melhorar a relação com seu cachorro. E também evitar esses excessos prejudiciais.

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